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Coluna do Bozzo 7

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Coluna do Bozzo 7

davidegolias

Vou seguir um pouco mais adiante com os sustos, tensões e medos que nos cercam quando estamos na estrada.

Estávamos em Piracicaba. O show era num estacionamento de um shopping. Pouca infra-estrutura, ou, ao menos, uma infra-estrutura improvisada, pois o público esperado era grande demais e o espaço que os contratantes conseguiram havia sido aquele.

Uma daquelas estruturas metálicas de cerca de um metro de altura, nos separava do público. Esta estrutura devia estar há pelo menos uns 15 a 20 metros da boca do palco. Capital no palco, sempre aquela energia de músicas pra serem dançadas, ou, como o Dinho dizia, Música Prapular Brasileira. A galera cada vez mais inflamada e essa distância do palco, parecendo, cada vez mais, um fosso de segurança usado em castelos. Como havia pouquíssimas pessoas nesta área, o que esfriava o nosso contato com o público, a certa altura o Dinho pede que todos avancem e cheguem mais perto de nós, porque era assim que ele sempre gostava de sentir a galera... Tocando suas mãos, olho no olho.

Não sabíamos, mas a esposa de um dos seguranças (sempre um daqueles armários de quase 2 metros de altura, por 2 de largura) estava com uma gravidez avançada e assistia ao show nesta área previamente reservada pros convidados VIPs.

Só pra esclarecer, eu costumava tocar com um pequeno PA (aquelas caixas enormes que se usava como som, antes do advento do Fly PA, pra mandar o som pro público) às minhas costas.  Sempre gostei de tocar com o volume altíssimo, a ponto de sentir o deslocamento do ar batendo às minhas costas. Preferia usar dois tufos de algodão, pra “tentar” preservar minha audição, do que tocar baixo. Volume e rock’n roll são inseparáveis.

Dito isso, acredito que seja fácil imaginar o tamanho das caixas que estavam às minhas costas. O Dinho mal acabou de chamar a galera, todos começaram avançar até a beira do palco. Momentos depois, sinto meu monitor despencar e as caixas caindo a centímetros de mim. Uma distância, minimamente menor, teria me levado a uma cadeira de rodas, tenho certeza, porque um peso daqueles caindo sobre minha coluna não seria difícil de supor o estrago que faria. Olho pra trás e vejo aquele “monstro” cuspindo fogo pelos olhos, e eu, sem ter a menor noção do que estava acontecendo e nem da razão. O cara desceu do palco e eu, muito idiota, saio correndo atrás dele (ele estava correndo pra socorrer a esposa dele, óbvio, mas o nanico, aqui, achava que ele estava fugindo, rsss). No meio do caminho, encontro mais uma vez, o meu roadie, Cassiano (aquele mesmo que era investigador de polícia). Como estava aos berros me dirigindo ao segurança ele chegou me agarrando e tentando me controlar. Eu berrava pro cara, o desafiando, e conclamando o Cassiano a participar daquilo. O cara continuava indo em direção à esposa. E eu relatei brevemente ao Cassiano:-“Aquele filho da p... me jogou meu monitor nas costas, vou lá dar uma porrada neste §§§§##@@@@&&%%%**....” Na mesma hora o Cassiano, me contendo, diz:-“Bozzo, eu adoro uma briga, você sabe disso, mas olha o tamanho do sujeito!!! Nós vamos apanhar pra cacete (vejam que ele disse “nós”, ainda assim, sendo solidário). É nesta hora que a ficha cai. Se eu não tinha quebrado a coluna até aquele momento, talvez, essa fosse a hora apropriada, se eu continuasse a vociferar com o cara!!!

Não podia me dar por vencido. Voltei ao palco e peguei o microfone e disse algo, mais ou menos assim: -“Galera, tem uns caras aqui, que deveriam estar fazendo a nossa segurança pro show rolar sem problemas, mas ao invés disso querem acabar com a nossa diversão. Um deles acabou de tentar me agredir e tá querendo parar o show. Ele está aqui ao lado do palco junto com os outros. Vamos dar uma lição neles e tirar esses caras daqui. Assim a gente prossegue o show  e todo mundo se diverte”. Bom, o que se seguiu foi inusitado. Uma turba ensandecida saiu em disparada em direção aos seguranças e os caras saíram correndo, e, não voltaram mais, é lógico. Ficamos sem segurança, mas o show prosseguiu em total paz, com todo mundo se divertindo e sem ocorrências.

Moral da história: quem disse que eu não ia fazer o Gigante correr? Tive meu dia de Davi e venci o Golias (rssss).

davieGolias(1)

Vários problemas como esse me fizeram abandonar aquela vida de rock’n roll na estrada.

Outras coisas contribuíram. Desenvolvi um baita medo de avião quando minhas filhas nasceram. Me tornei um provedor de uma família, e se algo me acontecesse, as coisas ficariam difíceis.

O Dinho, assim como eu tinha e tem muito medo, pelo que sei. Estávamos indo a Porto Alegre pra fazer o show de lançamento da MTV no Rio Grande do Sul. Um vôo terrível. Solavancos, altos e baixos, frio na barriga, galera com mal estar, mais solavancos e suspiros de “UUUHHH”, comissária pedindo “mantenham os cintos apertados, estamos passando por uma zona de turbulência”, talvez uma zona de uns 2 mil quilômetros, o comandante que pede a palavra repetindo, praticamente as mesmas palavras, ou seja, o bicho tá pegando e estão querendo nos manter calmos pra não piorar a situação. Pronto, “tripulação, preparar para o pouso”. Cabeceira da pista chegando, alguns metros a menos e muitos gritos dignos de qualquer deste filmes de catástrofe a mais, olho para a janela e vejo a asa esquerda “praticamente” tocar o chão, pensei “pronto, já era!!!”. Gritos, muitos gritos, mais altos ainda!!! Não havia condições de pouso, isto estava claro, mas o “comandante Ninja” põe o avião no solo.

Saí como um “sobrevivente” e mal sentia o chão. O Dinho me disse que havia cruzado o comandante e o havia cumprimentado, no que eu rebati: -“ onde está o filho da ..... que eu quero dar uma porrada nele (como sempre, nervosinho, rsss)”. Bom, chegamos à sala de desembarque e nos relatam que tínhamos ventos laterais de mais de 80 nós (não importa o que isso signifique, mas o fato é que pra aviação isto é proibitivo quando se fala em pouso) e que a torre de comando não havia permitido o pouso. Todo o pessoal da Infraero havia se dirigido à pista pra ver o “acidente”, porque uma coisa era certa na visão deles: o acidente iria acontecer. Mas à revelia o comandante efetuou o pouso.

Não houve o show, porque o palco, com toda a ventania dada no dia, havia sido “destelhado” e não existiam condições de ser realizado. No dia seguinte tivemos que aguardar um vôo pra voltar, porque “o piloto que deveria conduzir a aeronave do vôo pra São Paulo, está suspenso, respondendo sindicância, por ter desrespeitado ordens de retornar de onde vinha,  ontem quando chegava aqui em Porto Alegre. Aguardem novas informações, por favor”.

Acredito que a coisa não era tão simples, né? Muita descarga de adrenalina no sangue depois, e nada de show (leia-se, frustração), voltamos a São Paulo.

Mais motivos pra “abandonar essa vida”.

Bom, hoje sou muito mais calmo, porque vivo muito menos tensões, mas a saudade do palco é grande. Com todos os percalços que são característicos, espero voltar em breve aos palcos, pra matar esta vontade.

diretoria3


COMENTÁRIOS  

Postado em
Abr 06, 2011
Postado por
0 RE: Coluna do Bozzo 7
Muito bom o texto! Muito medo de avião também! E assistir um show do Capital sem aqueles seguranças gigantes seria ótimo!!

@belissamarchi
Postado em
Abr 07, 2011
Postado por
0 RE: Coluna do Bozzo 7
Otimo texto.
Sua coluna está de parabens.

luizscoffier@ho tmail.com
Postado em
Abr 09, 2011
Postado por
0 RE: Coluna do Bozzo 7
Belo texto.
allan_sampaio20
Postado em
Abr 10, 2011
Postado por
0 RE: Coluna do Bozzo 7
CADA HISTÓRIA EMOCIONANTE!!
REALMENTE A ESTRADA NAO É FACIL!
ADOROO SABER ESSES DETALHES!
@CRIS_KITYci
Postado em
Abr 11, 2011
Postado por
0 RE: Coluna do Bozzo 7
Adoro lê a coluna do Bozzo :D

@nayarapatini

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